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segunda-feira, 19 de setembro de 2016

DIETA, DEPRESSÃO, EVOLUÇÃO E FILOSOFIA - OI?

Ultimamente tenho me sentido incomodada com a minha imagem exterior e meu comportamento, àquilo que estou atrelada por viver neste mundo contemporâneo tão cheio de demanda e tão vazio de si.
Meu comportamento por mais que eu cuide é modelado pelas condições sociais que se apresentam a mim. Mesmo vivendo nestas condições e consciente delas, eu não gosto. É como se aquele “perigoso” vazio reflexivo que algumas pessoas só desenvolvem em tempos de férias andasse comigo 24 horas por dia. É angustiante não ter alternativas seguras de mudança ao constatar que a vida até aqui não foi vivida do jeito que eu gostaria.

 Não gosto de não ter alternativas e ainda por cima a vida é cheia de paradoxos. Como os pais que trabalham demais para dar sustentar a família e não tem tempo para os filhos, mas se diminuem o ritmo do trabalho não conseguem prover a sobrevivência deles. E a solução deste impasse não lhes cabe. Ou fazer dieta gerando estresse que consome a glicose necessária ao autocontrole para resistir às tentações.

 Quando você anda fora do padrão comportamental que a sociedade construiu você é encarado como possuidor de algum problema e se transforma muitas vezes num imã de conseqüências negativas, mesmo quando você tenta pensar diferente, fora da caixa. Acaba tendo que engolir o mantra que criou para se sentir melhor com o mundo: “pelo menos sou consciente e por isso vivo melhor que os outros”

 Foi então que tomei uma decisão. Infame, indigna perto de outras que poderiam ser consideradas, mas ainda assim uma decisão minha, portanto respeitosa. Mudarei minha imagem física para ela se adaptar melhor ao que sou no meu interior, ainda que o espelho jamais consiga refletir isso.

Não significa mudar quem sou e sim como me mostro. Tem mais a ver com comportamento social do que com autoconhecimento. Estou falando de dieta sim e também de corte de cabelo, coloração, textura de pele, vestes do corpo, etc. “Mas isso tudo é tão superficial, ugh!” Óbvio que é superficial, isso é imagem física. Não me sinto bem ao me importar com essas coisas, mas a decisão já está tomada e foi bem pensada em termos de tempo, saúde e comportamento.

Toda essa cadência depressiva que faz parte do meu ser cresce cada vez que tenho 10 minutos de extrema felicidade por comer uma pizza ou cachorro quente ou uma lasanha ou tudo ao mesmo tempo com um delicioso drinque docíssimo e alcoólico para acompanhar! Naturalmente associada ao funcionamento cerebral, a má alimentação colabora com o aumento da depressão e é nesta situação em que eu me encontro. É engraçada a tendência de o mundo ficar pior e menos habitável cada vez que engordo.

Legal fazer dieta mudar o shape, ser saudável. Porém, só para variar, os dados são desanimadores. O organismo humano não evoluiu para aceitação de dietas e apenas 1% das pessoas que fazem dieta consegue manter o peso e sua rotina alimentar. Temos tudo contra nós! Além da gigantesca oferta alimentícia do ambiente moderno, nosso cérebro – era para esse cara ajudar não era?- entende que o nosso peso máximo é o ideal e vai fazer você querer comer, comer e comer até regressar ao peso que tinha antes da dieta, tudo para que mantenha sua reserva de energia em caso de período de fome. Bela resposta evolutiva!

Poxa cérebro, seu atrasado, o ser humano não passa mais períodos de fome tá sabendo? A não ser em alguns locais da África nesse caso você tem a obrigação moral de ir fazer seu trabalho lá, não aqui. Obrigado por nada!

Já a ansiedade, super realçada nos indivíduos modernos, dado o padrão social no qual vivemos, aumenta as chances de adquirir hábitos compulsivos. Por isso que o foco da mudança da imagem física não pode ser a alimentação, tem que ser algo como atividades físicas, atividades intelectuais, sociais, mas não a comida!

 É mais fácil não ceder à tentação de uma pizza gigante se eu não estiver com a atenção voltada a ela o tempo todo. Ou ainda, quando você faz novos amigos e desenvolve novos interesses é mais fácil resistir à tentação do docíssimo, alcoólico e delicioso drinque com os amigos que detestam o mundo tanto quanto você.

Mas não nos deixemos enganar, pois o paradoxo não foi embora, tampouco resolvido. Apenas agora o foco é outro. Ainda que a imagem transmita de maneira mais efetiva quem eu seja, eu preciso ser alguma coisa, alguém. E a construção do ser é permanente! Nunca se esqueça.




Informações científicas sobre dietas:
Cláudia Feitosa-Santana: pós doutora em neurociência integrada, doutora em neurociências e comportamento, mestre em psicologia experimental.

imagem: Vida Morgada, do blog medicinaunp.blogspot.com

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